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Dia Internacional das Meninas: como elas vivem os efeitos da crise de COVID-19
A pandemia colocou em risco a infância de 767 milhões de meninas; 11 milhões delas talvez nunca voltem à escola
Menina estudando

O relatório sobre gênero contido no Relatório de Monitoramento da Educação no Mundo da UNESCO de 2020 mostra que 180 milhões de meninas puderam ter acesso à educação primária ou secundária desde 1995, e o número de alunas na educação superior triplicou nos últimos 25 anos. No entanto, somado às desigualdades que ainda persistem, meninas do mundo todo agora veem seu direito fundamental à educação ameaçado pelos efeitos da pandemia de COVID-19.

No auge da crise, as 767 milhões de meninas que se encontravam confinadas em suas casas, privadas da alimentação e do apoio oferecido por suas escolas, também corriam maior risco de casamento forçado, violência doméstica e sexual, e gravidez precoce. Estima-se que, em vários países, o abuso sexual baseado no gênero pode ter aumentado em até 30% durante a crise.

Com motivo do Dia Internacional das Meninas 2020, a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, publicou uma declaração chamando à mobilização pelo direito à educação e à igualdade de gênero e lembrando que, após a crise, 11 milhões de meninas talvez nunca voltem à escola.

Há meses o Setor de Educação da UNESCO vem alertando para o perigo que as meninas estão correndo desde o início do fechamento das escolas. Durante um seminário online, Suzanne Grant Lewis, diretora do IIPE UNESCO, enfatizou que "as evidências mostram que tanto a educação quanto o gênero são colocados em segundo plano nas respostas aos surtos de doenças. Precisamos prestar mais atenção às dimensões de gênero no fechamento das escolas pelo coronavírus".

 

Quais são as dimensões de gênero do fechamento das escolas?

Cargas domésticas

Em muitas sociedades, as mulheres e meninas assumem a maior parte das tarefas domésticas e de cuidado infantil não remuneradas. Com o confinamento e o fechamento das escolas, este trabalho tende a aumentar. Isso afeta tanto as mulheres, que constituem a maioria da força docente em muitos contextos, quanto as meninas, que se veem impedidas de continuar sua aprendizagem a distância.

Demandas de saúde

As mulheres e meninas são maioria entre a força de trabalho da área da saúde, seja ela remunerada ou não. Portanto, estão mais expostas ao coronavírus, seja por cuidar de outros em casa ou em centros de saúde. Dados de pesquisa revelam que na Espanha e na Itália, respectivamente, 72% e 66% dos trabalhadores sanitários infectados são mulheres.

Violência doméstica

Os riscos para a saúde das meninas que não estão indo à escola não se limitam ao vírus em si. Sem a escola – um lugar seguro e educativo – como escapatória, o confinamento no lar significa um maior risco de violência doméstica e sexual. Os dados disponíveis até agora indicam que as taxas de violência doméstica aumentaram em países tão variados quanto Argentina, França e Cingapura.

Saúde sexual e reprodutiva

Após o vírus do Ebola, Serra Leoa viveu um enorme aumento nas taxas de gravidez na adolescência que, segundo os próprios adolescentes, estava diretamente relacionado com o fechamento das escolas. Em algumas comunidades, a gravidez será uma barreira permanente para que uma menina volte à escola, inclusive quando a crise da COVID-19 terminar. Além disso, durante a crise, é provável que os recursos e instalações de maternidade e reprodução sejam realocados para conter a pandemia, o que representa ameaças adicionais para a saúde e a segurança das adolescentes e mulheres jovens.

 

O que se pode fazer para superar esses problemas?

Com esses problemas em mente, e sabendo que é menos provável que as meninas regressem à escola depois de uma ausência prolongada, as autoridades educacionais devem tomar medidas para evitar uma reversão desastrosa do progresso recente na apredizagem das meninas e mulheres. Em seus comentários iniciais no mencionado seminário, Suzanne Grant Lewis alertou que a COVID-19 aumentará a desigualdade de gênero, e pediu às comunidades que atuem rapidamente, sugerindo uma série de medidas que incluem:

1. Garantir uma represetanção equitativa de mulheres e homens na tomada de decisões relacionadas à crise e aproveitar a experiência das mulheres;

2. Produzir dados sensíveis ao gênero relacionados com a crise;

3. Utilizar redes de mulheres em comunidades para organizar respostas à crise;

4. Incentivar as meninas a continuarem aprendendo durante e depois da crise, e a apoiar suas pares;

5. Incentivar homens e mulheres a compartilhar o cuidado infantil e o trabalho doméstico no lar e na comunidade;

6. Denunciar a violência doméstica e estabelecer ambientes seguros para as mulheres vítimas de abuso.

Os planejadores de educação devem estar conscientes da ameaça particular que o fechamento das escolas pelo coronavírus representa para meninas e mulheres, e garantir que os planos para a continuidade da aprendizagem também o façam. A desigualdade digital de gênero deve ser superada para que as meninas sejam beneficiadas pelas soluções de aprendizagem a distância online; os horários de estudo devem ser flexíveis, sempre que possível, para que a aprendizagem possa ser realizada de acordo com as demandas domésticas que são feitas de forma desproporcional às meninas e mulheres; e devem ser tomadas medidas específicas para garantir que a maior quantidade possível de estudantes volte às escolas uma vez que estas sejam reabertas.

 

"Um problema universal"

Nenhum país pode se dar o luxo de ignorar as dimensões de gênero no fechamento das escolas pela COVID-19. Como afirmou Grant Lewis, "é um problema universal. Todos os países devem considerar como esta crise poderia aumentar as desigualdades, e todos os países devem tomar medidas para enfrentá-las''. Levará algum tempo para entender o impacto total desta crise, mas é crucial garantir que as meninas não percam sua educação e seu futuro.

 

Sobre o Dia Internacional das Meninas

Em 19 de dezembro de 2011, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 66/170, através da qual declarou o 11 de outubro como o Dia Internacional das Meninas, com o objetivo de reconhecer os direitos das meninas e os problemas extraordinários que elas enfrentam em todo o mundo.

Se apoiadas de forma eficaz durante a adolescência, elas terão potencial para mudar o mundo, tanto como as meninas que são hoje, quanto como as trabalhadoras, mães, empresárias, tutoras, chefes de família e líderes políticas que serão amanhã. Investir em seu potencial defende seus direitos agora e promete um futuro mais equitativo e próspero, no qual metade da humanidade seja uma parceira em condição de igualdade para resolver os problemas de mudança climática, conflito político, crescimento econômico, prevenção de doenças e sustentabilidade global.

*Com informações da UNESCO

 

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