A educação como antídoto para a desigualdade após a COVID-19
No IV Fórum Regional de Políticas Educacionais, responsáveis pela educação nos países da América Latina e Caribe se reuniram para discutir ações de educação inclusiva
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IV Foro Regional de Políticas Educativas

De 9 a 12 de novembro, autoridades e representantes de 24 ministérios da educação da América Latina e Caribe participaram, ao lado de especialistas em educação inclusiva do mundo acadêmico e de organizações internacionais, da edição 2020 do Fórum Regional de Políticas Educacionais sobre Inclusão e educação em tempos de pós-pandemia. 

A partir das descobertas da primeira edição regional para a América Latina e Caribe do Relatório de Monitoramento Global de Educação (Relatório GEM), publicado em 5 de novembro, formuladores de políticas e especialistas refletiram sobre o desafio da inclusão educacional na região. O debate se deu em um momento em que os Países Membros da UNESCO se encontram a 10 anos do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 e em que a maioria deles continua sofrendo o impacto da pandemia da COVID-19.

Claudia Uribe, Diretora do Escritório Regional de Educação para a América Latina e Caribe da UNESCO, resumiu o problema durante a cerimônia de abertura do Fórum: “Inclusão e equidade continuam sendo uma tarefa pendente na nossa região, um problema que no contexto atual se tornou mais profundo e evidente, cuja atenção demanda uma urgência renovada”, disse.

Educação como antídoto para a desigualdade

Segundo relatório publicado em agosto deste ano pela UNESCO, mais de 160 milhões de crianças não puderam frequentar a escola na América Latina e Caribe devido à crise sanitária provocada pela pandemia. Em outras palavras, a COVID-19 aprofundou as lacunas educacionais na região que já era a mais desigual do mundo: em 21 países, 20% dos estudantes de setores socioeconômicos médios e altos da população têm em média cinco vezes mais chances de concluir sua formação secundária em comparação com os 20% mais pobres.

Em especial, a pandemia colocou em risco a infância de 767 milhões de meninas, que durante o confinamento têm maior probabilidade de absorver o trabalho doméstico e sofrer violência intrafamiliar – 11 milhões delas talvez nunca mais voltem para a escola. “A pandemia causou uma interrupção sem precedentes na educação da nossa região e nos deixou à beira de uma catástrofe geracional”, afirmou Pablo Cevallos Estarellas, Diretor do Escritório para a América Latina do Instituto Internacional de Planejamento Educacional (IIPE) da UNESCO, entidade anfitriã do Fórum. 

“Ao mesmo tempo, a crise tem estimulado a inovação no setor educacional, com novas soluções tecnológicas para a educação a distância. No entanto, a diferença no acesso às modalidades de ensino ministradas durante o fechamento das escolas criará mais desigualdades em longo prazo”, disse Cevallos Estarellas. Segundo o especialista, esse efeito paradoxal das inovações tecnológicas deve servir de alerta para não se perder de vista que os cenários futuros da educação devem ser indissociáveis do imperativo de não deixar ninguém para trás. “Por isso, precisamos educar mais e melhor na nossa região, porque a educação é um excelente antídoto para a desigualdade”, concluiu.

O Fórum Regional de Políticas Educacionais reuniu um total de 162 nomes de referência na educação de toda a região, que durante quatro dias de reflexão e debate desenvolveram mais de 40 recomendações fundamentais para a construção de uma educação verdadeiramente inclusiva, entre as quais se destacaram as seguintes:

A redução da desigualdade digital é uma necessidade urgente

Para os especialistas, reduzir o hiato digital é uma prioridade, “sobretudo considerando que a reabertura das escolas provavelmente ocorrerá com restrições e em formatos de educação presencial e a distância”, lembra Renato Opertti, do Escritório Internacional de Educação (OIE-UNESCO). Nesse sentido, defendeu-se a implementação de uma modalidade híbrida de aprendizagem como integração entre os espaços virtuais e presenciais, para promover o desenvolvimento pessoal e as competências digitais em professores e estudantes.

Uma educação inclusiva é uma educação intercultural

Outro destaque foi a necessidade de promover processos etnoeducativos capazes de aumentar o reconhecimento das particularidades culturais dos povos latino-americanos e caribenhos, como sua descendência afro-americana e ameríndia. Por exemplo, reconheceu-se a importância de estabelecer e gerar políticas e estratégias de educação intercultural bilíngue, que deem a todos os estudantes a oportunidade de aprender na sua língua nativa.

O trabalho intersetorial e a participação de toda a cidadania devem ser incentivados

“Ministros e governos são temporários, mas a cidadania, nas suas diferentes camadas, é o que possibilita exigir uma política, sustentá-la e reivindicá-la”, afirmou a ex-ministra da educação do Equador Gloria Vidal durante o encontro, acrescentando como recomendação a necessidade de um grande debate entre os diversos atores da comunidade educativa, “para a construção de políticas de Estado, não de governo”. Segundo a especialista, a construção de políticas públicas que combatam as formas de discriminação nos sistemas educacionais também deve se basear em uma perspectiva universal, intersetorial e integral. 

É na diversidade que está a riqueza

Outro conceito que atravessou o Fórum foi o de transcender o paradigma da segregação dos sistemas educacionais, incorporando a diversidade em todos os seus aspectos. Essa mudança de enfoque implica que a inclusão não é apenas incorporar as diversidades, mas celebrá-las como uma oportunidade de construir sociedades melhores. A incorporação da educação não formal, da sociedade civil, das famílias, da voz dos próprios estudantes, da abordagem holística da educação ligada a outros fatores, como saúde e desenvolvimento social, além do aprendizado a partir das experiências acumuladas na região, foram as recomendações elaboradas pelos participantes, as quais giraram em torno da transição para um paradigma transversal, multidimensional, horizontal e colaborativo. 


Sistemas educacionais resilientes para superar crises

Por fim, destacou-se a ideia de avançar em direção a sistemas educacionais mais resilientes, flexíveis e inclusivos, capazes de responder às diversas necessidades, habilidades e características de todos os estudantes, especialmente durante as crises cada vez mais frequentes, e de todos os tipos, sofridas pela região. Conforme Manos Antoninis, Diretor do Relatório de Monitoramento Global de Educação (GEM) da UNESCO, “em um mundo que enfrenta cada vez mais a incerteza e a precariedade, a inclusão deve ser um componente central do futuro da educação”. 
 

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