Escola pós-pandemia deverá explorar outros espaços além da sala de aula, avaliam especialistas
Organizado pelo IIPE UNESCO, webinar com Francesco Tonucci discutiu o planejamento da volta às aulas presenciais
Francesco Tonucci, Gladys Kochen e Gilvania Ferreira Porto

Francesco Tonucci, Gladys Kochen e Gilvania Ferreira Porto

Para enfrentar a crise na educação provocada pela pandemia de COVID-19, foi preciso que os sistemas educacionais ampliassem seus programas de educação a distância, criassem alternativas para populações sem acesso à internet ou mesmo à TV ou rádio, pensassem propostas de apoio psicoemocional para estudantes e professores e intensificassem a comunicação entre escolas e famílias. Na América Latina, essas iniciativas foram reunidas pelo Instituto Internacional de Planejamento Educacional da UNESCO em um documento interativo de sistematização, como parte da resposta à crise oferecida pela UNESCO.

 

O desafio que a comunidade educacional enfrenta agora é o planejamento para a reabertura das escolas. “Hoje nos encontramos em meio a uma pandemia e é preciso atravessá-la, mas também começar a pensar em como sair dela. Devemos nos conscientizar de que não dá para improvisar, é preciso gerir e planificar. Ou planificamos ou seremos escravos das circunstâncias, e perderemos a chance de escolher um futuro mais justo para todas as pessoas”, diz Gladys Kochen, coordenadora de Formação do Escritório para a América Latina do IIPE UNESCO.

Para o psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, esse planejamento não deve partir da pergunta sobre o que os estudantes perderam durante o período de quarentena, mas sim sobre o que ganharam. Criador do projeto “A cidade das crianças”, ele passou os últimos meses defendendo o seu conceito da “casa como laboratório de experimentação” com tarefas domésticas que pudessem ser associadas às disciplinas escolares. Nessa “didática de emergência”, lavar roupa, pregar botões, cozinhar, cuidar uma planta, ver fotos de família ou escrever um diário substituíram as velhas lições de casa.

Agora, Tonucci vai além e propõe para o fim do confinamento uma reinvenção das escolas. Ao lado de profissionais do Sesc e do IIPE UNESCO, ele participou na última quarta-feira, 24, de um debate virtual com a presença de mais de 5 mil pessoas de toda a América Latina, onde defendeu que as escolas “têm um tesouro a descobrir”.

“Nas pesquisas realizadas por nós com os Conselhos de Crianças, quase todas as crianças acreditam que aprenderam alguma coisa neste longo período de espera. E não estamos falando de brincadeiras, e sim de capacidades e competências”, diz Tonucci. Para ele, esse conhecimento deve ser explorado dando autonomia e espaço às crianças, com aulas multisseriadas fora dos limites da sala de aula.

Isso porque um dos aprendizados apontados pelo pedagogo tem justamente a ver com a diversidade experimentada no ambiente doméstico. “A casa, por mais pobre que seja, é sempre um lugar complexo, porque possui vários ambientes, cada um com uma especialidade. Só na escola é que existe essa ideia de passar seis a oito horas sentado em um mesmo espaço aprendendo de tudo”, diz. 

Uma nova escola deveria, portanto, fazer melhor uso de seus corredores, pátios e jardins, e assim também encontrar soluções para o distanciamento social que as crianças e adolescentes deverão continuar mantendo na volta às aulas presenciais. Nas palavras do psicopedagogo, é preciso “renunciar à sala de aula e pensar uma escola feita de oficinas e laboratórios”.

“Agora estamos, na medida do possível, bem em casa, mas confinados. Voltar para a escola e continuar confinados dentro de uma sala de aula não é possível. Precisamos olhar para o espaço externo, para as áreas de ocupação que as escolas possuem”, defende Gilvania Porto Ferreira, assessora do Departamento Nacional do Sesc.

Para que essas mudanças se concretizem, Tonucci defende que as autoridades educacionais se posicionem ao lado dos que defendem as mudanças. Mas também que escutem as crianças. “Elas devem fazer parte da mesa onde as decisões são tomadas e devem se sentir responsáveis. Tenho certeza que é possível, porque as crianças já estão sentindo muito fortemente a responsabilidade deste momento”.

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